Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio
Restauro-a
Dou-lhe um som para que ela fale por dentro
Ilumino-a
Ela é um candeeiro sobre a minha mesa
Reunida numa forma comparada à lâmpada
A um zumbido calado momentaneamente em exame
Ela não se come como as palavras inteiras
Mas devora-se a si mesma e restauro-a
A partir do vómito
Volto devagar a colocá-la na fome
Perco-a e recupero-a como o tempo da tristeza
Como um homem nadando para trás
E sou uma energia para ela
E ilumino-a
Daniel Faria
Dita, jamais terá retorno. Lançada ao Mundo, apesar de nos pertencer, deixa de pertencer-nos. Será então de toda a gente. Cada pessoa retirará dela o que mais lhe aprouver e usá-la-á como achar melhor Que este espaço seja um lugar de encontro. Onde Amor e Luta não tenham razão de ser a não ser eternamente juntos. De revolta ou indignação, de entrega incondicional ou condicionada à paixão. Porque a força das palavras nunca terá limite. Que seja entendida com a marca que lhe deixámos no ADN.
domingo, 10 de abril de 2011
A importância da palavra
A questão talvez já nem seja uma informação excessiva, reduzida a um grosseiro ruído de fundo, onde a verdade objectiva é acabrunhada pelas verdades subjectivas e particulares, leves como a espuma, inconsistentes como o vento e, muitas vezes, inconfessáveis como os grandes pecados. A questão talvez seja sobretudo a deformação deficiente dos utilizadores e manipuladores da palavra.
Uma sociedade que só reage a slogans é uma sociedade rendida à manipulação, que desprezou a cultura, o conhecimento e as referências históricas, como os únicos elementos de ligação que permitem formar critérios e opiniões a partir da informação.
São muitos os que se interrogam se a televisão digital, os computadores, a Internet, o correio electrónico e as páginas Web significam um efectivo contributo para tornar os cidadãos deste final de século mais cultos, mais informados, mais poderosos, mais felizes e com mais oportunidades, ou se uma contabilidade tardia e terrível os revelará como autistas, sem capacidade crítica, manipuláveis e submetidos à ditadura do pensamento único.
O problema é a morte lenta da palavra. O problema não é áudio, vídeo ou digital.
É dentro das palavras que permanecem as coisas. No princípio era o verbo. A eternidade pode bem ser "um inaudível estrondo de palavras". Como a continuidade humana se manifesta no interminável rumor das palavras.
O que nos levou então a endeusar o provérbio oriental de que "uma imagem vale mil palavras"?
Nós, que ao longo dos tempos sentimos, crescemos, aprendemos, ensinamos, partilhamos, descobrimos e fomos nas palavras e com as palavras? Todo o animal vê, só nós falamos. Esse foi o dom, o Big Bang!
O mais extraordinário é que a palavra vive hoje subordinada à imagem. Tornou-se breve, seca, descarnada, subliminar. Já não se fala para se ser entendido, fala-se para se ver visto.
Criámos uma cultura bárbara, incipiente, onde só ressalta a espuma das coisas. Uma regressão que a grande escritora de ficção científica Ursula Le Guinn imaginou há muito no "nome das coisas", um estádio humano onde para se conhecer a verdade era preciso dizer a palavra certa e exacta.
E a verdade tornou-se um privilégio de muito poucos.
O trabalho jornalístico passou à condição de "diz que disse" e o cidadão sabe mais sobre o efémero e o irrelevante do que sobre o que, sendo essencial, o defende e ameaça.
Bed Bradlee, professor de Jornalismo que foi director do Washington Post, dizia: "Por detrás de uma informação deficiente existe sempre uma formação deficiente."
A morte da palavra transporta consigo a morte de muitas coisas essenciais: o pensamento, a inteligência, a verdade. O fim das ideologias - também estupidamente erigido como um desiderato - conduzirá a um pensamento único e bacoco. A impunidade intelectual será não só tolerada como justificável.
Nas democracias, onde a palavra foi dada a uns por se supor que poderiam falar em nome de todos e, paralelamente, se criou um quarto poder em nome de direitos, liberdades e garantias fundamentais, assiste-se a um distanciamento cada vez maior entre os que julgam saber e os que não querem ouvir. Os primeiros já só falam entre si. Os segundo afastam-se cada vez mais. A abstenção, em todas as suas formas, aumentará. O poder de decidir desaparecerá. O direito à informação será, cada vez mais, uma figura de retórica. Sobre uns cairá o descrédito. Sobre outros a anestesia manipuladora da confusão.
Quem ganhará com isto?
Salvar a palavra pode muito bem ser, nos tempos que correm, a melhor forma de preservar a liberdade.
Uma sociedade que só reage a slogans é uma sociedade rendida à manipulação, que desprezou a cultura, o conhecimento e as referências históricas, como os únicos elementos de ligação que permitem formar critérios e opiniões a partir da informação.
São muitos os que se interrogam se a televisão digital, os computadores, a Internet, o correio electrónico e as páginas Web significam um efectivo contributo para tornar os cidadãos deste final de século mais cultos, mais informados, mais poderosos, mais felizes e com mais oportunidades, ou se uma contabilidade tardia e terrível os revelará como autistas, sem capacidade crítica, manipuláveis e submetidos à ditadura do pensamento único.
O problema é a morte lenta da palavra. O problema não é áudio, vídeo ou digital.
É dentro das palavras que permanecem as coisas. No princípio era o verbo. A eternidade pode bem ser "um inaudível estrondo de palavras". Como a continuidade humana se manifesta no interminável rumor das palavras.
O que nos levou então a endeusar o provérbio oriental de que "uma imagem vale mil palavras"?
Nós, que ao longo dos tempos sentimos, crescemos, aprendemos, ensinamos, partilhamos, descobrimos e fomos nas palavras e com as palavras? Todo o animal vê, só nós falamos. Esse foi o dom, o Big Bang!
O mais extraordinário é que a palavra vive hoje subordinada à imagem. Tornou-se breve, seca, descarnada, subliminar. Já não se fala para se ser entendido, fala-se para se ver visto.
Criámos uma cultura bárbara, incipiente, onde só ressalta a espuma das coisas. Uma regressão que a grande escritora de ficção científica Ursula Le Guinn imaginou há muito no "nome das coisas", um estádio humano onde para se conhecer a verdade era preciso dizer a palavra certa e exacta.
E a verdade tornou-se um privilégio de muito poucos.
O trabalho jornalístico passou à condição de "diz que disse" e o cidadão sabe mais sobre o efémero e o irrelevante do que sobre o que, sendo essencial, o defende e ameaça.
Bed Bradlee, professor de Jornalismo que foi director do Washington Post, dizia: "Por detrás de uma informação deficiente existe sempre uma formação deficiente."
A morte da palavra transporta consigo a morte de muitas coisas essenciais: o pensamento, a inteligência, a verdade. O fim das ideologias - também estupidamente erigido como um desiderato - conduzirá a um pensamento único e bacoco. A impunidade intelectual será não só tolerada como justificável.
Nas democracias, onde a palavra foi dada a uns por se supor que poderiam falar em nome de todos e, paralelamente, se criou um quarto poder em nome de direitos, liberdades e garantias fundamentais, assiste-se a um distanciamento cada vez maior entre os que julgam saber e os que não querem ouvir. Os primeiros já só falam entre si. Os segundo afastam-se cada vez mais. A abstenção, em todas as suas formas, aumentará. O poder de decidir desaparecerá. O direito à informação será, cada vez mais, uma figura de retórica. Sobre uns cairá o descrédito. Sobre outros a anestesia manipuladora da confusão.
Quem ganhará com isto?
Salvar a palavra pode muito bem ser, nos tempos que correm, a melhor forma de preservar a liberdade.
Maria José Nogueira Pinto
Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya
"Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
é possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem sequer seja isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
para que os liquidasse com suma piedade e sem efusão de sangue.
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
é isto que mais importa -- essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
-- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga --
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã»;
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é só nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram".
é possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem sequer seja isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
para que os liquidasse com suma piedade e sem efusão de sangue.
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
é isto que mais importa -- essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
-- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga --
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã»;
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é só nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram".
JORGE DE SENA
Via: Luísa
Avesso Bíblico
No início,
já havia tudo.
Mas Deus era cego
e, perante tanto tudo,
o que ele viu foi o Nada.
Deus tocou a água
e acreditou ter criado o oceano.
Tocou o chão
e pensou que a terra nascia sob os seus pés.
E quando a si mesmo se tocou
ele se achou o centro do Universo.
E se julgou divino.
Estava criado o Homem.
Mia Couto in "idades cidades divindades”
já havia tudo.
Mas Deus era cego
e, perante tanto tudo,
o que ele viu foi o Nada.
Deus tocou a água
e acreditou ter criado o oceano.
Tocou o chão
e pensou que a terra nascia sob os seus pés.
E quando a si mesmo se tocou
ele se achou o centro do Universo.
E se julgou divino.
Estava criado o Homem.
Mia Couto in "idades cidades divindades”
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